sexta-feira, 26 de junho de 2009

03.3 Sistemas de Movimento e Profundidade
O objectivo dos sistemas de movimento e profundidade é colocar movimento num espaço clássico e num espaço narrativo. Assim, há uma liberdade total para ver e perceber o espaço.

A olhada dinâmica do século XX: A Modernidade Arquitectónica
·Villa Savoye
Le Corbusier, 1928

A ideia essencial está na percepção dinâmica do espaço, em que há a procura do movimento quase real, pois o edifício parece estar a flutuar. Há algo independente do percurso, o que gera uma percepção dinâmica da nossa mente, levando assim á procura de sensações.

1. A Janela Virtual
2. A Metáfora Maquinista: o Futurismo
3. A Forma Dinâmica: Expressionismo
4. As Geometrias Instáveis: Construtivismo Russo
5. A Expansão Horizontal da Planta Livre
6. O Plano Profundo

1. A Janela Virtual
·Casa Museu Sir John Soane
Soane, J., 1812-34

Esta é uma casa construída por diferentes realidades (Grécia, Egipto) e por pedaços que este senhor trouxe das suas viagens. Os pedaços de realidades diferentes no mesmo espaço, pois estas pequenas realidades estão condensadas por todas as paredes, desvinculando assim a ideia de limite do espaço arquitectónico através da sobreposição de elementos. Deste modo, a casa já não é entendida como estável mas sim com um dinamismo virtual.

2. A Metáfora Maquinista: o Futurismo

·La Cittá Nuova
Sant’Elia, A., 1913-14

Sant’Elia tenta criar dinamismo em algo que é estável.

3. A Forma Dinâmica: Expressionismo

·Torre Einstein
E. Mendelsohn, 1917-22

É constituída por uma geometria encurvada. É semelhante a um submarino que se move pela terra.

4. As Geometrias Instáveis: Construtivismo Russo

Este é um movimento mais composto, devido à procura da ideia de dinamismo e não existência de gravidade arquitectónica, tentando construir novas realidades pretendendo que a forma seja desvinculada do solo.


·Monumento na III Internacional
Tatin, V., 1920

A ideia de movimento está aqui representada pela “casca” e pela noção de ascensão, e a ideia de não gravidade pelo facto do edifício dar a noção que se está a elevar do chão. Aqui são utilizadas três geometrias/volumes simples: um cubo que representa a estabilidade e por isso localiza-se na parte inferior da construção, e além disso daria uma volta sobre si mesmo durante um ano, dando assim um movimento real ao elemento, dinamizando-o; uma pirâmide que também daria uma volta sobre si mesma durante um mês, uma vez que a pirâmide é um elemento geometricamente mais instável que o cubo e finalmente, no topo da construção está um cilindro que daria uma volta por dia, já que esta parte superior está mais dedicada ao uso público, estando assim mais vinculado à realidade das pessoas e transmitindo assim a ideia de que é necessário subir para dar a noção de não gravidade.

·Instituto Lenine
Leonidov, I., 1927

Aqui todos os elementos são tratados artisticamente, sendo que a geometria é quase um quadro em planta composta por linhas ortogonais que formam uma composição. Nesta construção também existe a noção de não gravidade devido ao balão que parece que se move se retirarmos os cabos, dando assim a noção de que o balão pode subir, mas que no entanto não passa de um elemento estável.

5. A Expansão Horizontal da Planta Livre


·Gabinete de Nemo
Ilustração de Edouard Rion, 1866

O objectivo é conseguir profundidade na planta levando assim à fachada livre, criticando desta forma o que era o espaço tradicional. Aqui o espaço é visto como um vazio interior em que no seu exterior apenas existe água, sendo assim o espaço construído, um espaço escavado, pois não há relação entre o interior e o exterior.


·Sistema Dominó
Le Corbusier

Com o sistema dominó devido à desmaterialização do limite, torna possível a arquitectura perceber o exterior através da planta livre. Este é um sistema abstracto onde as lajes são transladadas.

6. O Plano Profundo

Com o plano profundo dá-se uma extensão do interior para o exterior. Le Corbusier estuda todas essas possibilidades de expansão, chegando à conclusão que podemos criar diferentes percepções, pois ao estarmos dentro desse espaço podemos mover-nos dando assim uma noção de maior profundidade.

·“Las Lanzas”
Velásquez, 1634

Em primeiro plano estão pintadas as lanças verticais dando a noção de profundidade.

·Casa Baizeau, Cartago
Le Corbusier, 1921

Esta é uma casa que cresce na diagonal, em que há uma continuidade visual que vai além das dimensões do espaço interior.

Sistemas de Profundidade

1. Planta Aberta
2. Planta Purista
3. Planta Deslocada
4. Planta Fluida

1. Planta aberta: Desmaterialização do Muro

Neste tipo de planta há uma desmaterialização do limite criando-se então um limite virtual.
·Pavilhão Barcelona
Mies van der Rohe, 1929

O muro perde o carácter de limite, sendo a ideia principal os pilares serem revestidos com um material cromático para que faça reflexo e desse modo desaparecerem. Além disso os muros são de mármore polido para também criarem reflexos e não parecerem um limite.

·Vermeer, J., 1632-75

No quadro é colocada uma janela dentro de um espaço também representado neste quadro, dando a noção de que existe uma outra realidade para lá da janela. Embora não seja visível, sabemos que essa outra realidade lá está. Há ainda uma outra realidade que está representada por um espelho que há primeira vista não se vê mas que está lá, e nesse espelho está reflectida a cara da mulher, compreendendo-se assim esta realidade.

·Casa Church, Villa d’Avray
Le Corbusier, 1928

Há novamente uma desmaterialização do muro, pois Corbusier cria buracos inteiros nas paredes, como um muro que foi retirado (janelas grandes), que nos permite compreender o exterior, bem como uma janela de carpintaria preta para que se assemelhe a um quadro que marca uma realidade que está fora e um espelho do tamanho de uma parede com o intuito de devolver o espaço por nós criado.

2. Planta Purista: Fragmentos Condensados

Na planta purista há uma sobreposição de tramas e elementos transparentes. O importante é a junção de todos estes elementos e não o elemento em si.

·Zubarán, 1598

Aqui o espaço é interpretado como a pintura de um quadro cubista, pois o importante não é o objecto em si mas as relações entre os objectos. A realidade não é real porque é feita através de fragmentos sendo o objecto o elemento que gera o quadro.

·Pavilhão Espirit Nouveau
Le Corbusier, 1922

A planta é como um quadro em que existe profundidade pela extensão, pois através de um elemento sobreposto cria-se maior profundidade. Neste pavilhão conceberam-se espaços de duplas alturas e criaram-se novos espaços peça sobreposição de elementos.

3. Planta Deslocada: A Percepção Quebrada

Tem a capacidade de mudar um percurso, devido às diferentes percepções de um mesmo espaço.
·Villa Savoye
Le Corbusier, 1928

No interior existem elementos que obrigam a parar e a mudar o percurso, havendo assim uma extensão do tempo e do espaço para o compreender. No mesmo objecto pretende quebrar a percepção do receptor através do elemento curvo na parte inferior do edifício, do elemento quadrado no centro e novamente do elemento curvo, desta vez no topo do edifício. Há ainda um pilar que tenta romper a simetria, bem como a quebra dos elementos pelos pilares circulares em que entre eles aparece um pilar quadrangular.

4. Planta Fluida: A “Promenade”

A planta fluida caracteriza-se por um percurso linear sendo que ele mesmo flui. Não existe limite entre o tecto, chão e paredes. Tal como o nome indica, “Promenade” é um percurso que se faz por dentro da arquitectura, em que há uma planta aberta que se moldando de diferentes formas.


·Guggenheim, New York
Wright, F. Ll., 1943-59

No caso do museu Guggenheim, todo o espaço é definido pela rampa circular, em que toda a parte do fechamento tem inicio no interior criando uma nova tipologia, uma nova pele.

·Villa Savoye
Le Corbusier, 1928

É um espaço linear mas que permite criar uma narrativa dentro do percurso dando assim maior profundidade ao espaço. No meio de um pilar está uma mesa onde Corbusier deposita as suas coisas marcando assim o início da história. Esta história prossegue pela rampa e termina quando o arquitecto volta a deixar os seus elementos (chapéu, tabaco) em cima de uma outra mesa no exterior, havendo assim uma ligação entre os dois momentos, o inicial e o final.

Sistemas de Profundidade: Fim do Século XX

1. Concepção Dinâmica do Espaço

O espaço é percebido como se estivesse em movimento e é construído como se fosse uma fotografia congelada, ou seja, embora parece que está em movimento, o espaço é estável.

2. Sensação ou Procura de Não Gravidade

A arquitectura não está ligada ao chão, mas sim a flutuar.

3. Concepção Continuamente Cambiante

Cada projecto é uma resposta determinada ao tempo e momento que estamos a viver, em que fluxos de trabalho/movimento modificam a ideia tradicional do espaço.


·Restaurante Moonsoon, Sapporo
Hadid, Z., 1990

Transmite a ideia de movimento, profundidade e dinamismo, tanto no interior como no exterior do edifício. Embora a planta exterior seja muito agressiva, a segunda planta contém elementos mais fluidos e cómodos. Este projecto tem como elemento principal uma espiral suspensa no centro do espaço que quebra as duas plantas. Ainda no centro está uma clarabóia que permite a passagem da luz para o interior e que flui pela espiral como se de uma casca de laranja se tratasse.

·Villa em Haia
Hadid, Z., 1991

Esta foi uma proposta para dar uma nova ideia de percepção, pois foi criada por uma laje que tem uma casca que cresce e cria todos os espaços interiores da casa sendo esta composta por um espaço fluido e dinâmico no interior. A percepção dinâmica é apreendida durante o percurso uma vez que a laje é para ser percorrida, tratando-se assim de um dinamismo não controlado pois são deixados buracos que dão percepções diagonais, sendo possível do exterior ver o interior.


·Villa Moebius
Het Godi van Berkel, B.1991

Há um dinamismo externo com dinamismo interno, sendo este último para ser percebido através de um movimento fluido. Este projecto é baseado numa fita matemática (infinita) de Esher. Esta é uma casa feita de movimento onde se misturam a vida dos dois habitantes da casa, uma ideia linear da vida, dando a ideia de tempo como um percurso sem fim dentro de casa. Há também uma ligação da casa com o terreno, um diálogo de como se deve posicionar um objecto arquitectónico num lugar. No interior do edifício misturam-se as duas fitas/os dois fluxos, dando profundidade para que as duas pessoas que estão em lugares diferentes se consigam ver.

A Criação de Novos Espaços: O Espaço Plano

Podemos criar espaços que não são reais – espaço plano, apanhando-se vários espaços, colocando-os num mesmo plano e deste modo criam-se novas sensações e compreensões. O mesmo acontece no cinema, é a representação sobre uma superfície de todos os espaços que acontecem na realidade.

O Espaço Plano

1. O Espaço Quadro
2. O Espaço Marco
3. O Espaço Projecção

1. O Espaço Quadro
Acumula o tempo e espaço num mesmo plano e procurando um espaço fluido. Há uma relação da sobreposição de fragmentos num quadro.

·Pavilhão Barcelona
Mies van der Rohe, 1929

Compõe o marco em que os seus elementos estão a ser reflectidos na forma abstracta de ver a realidade, sendo que o reflexo da água cria uma nova realidade de ligação com o pavilhão. Os elementos parecem fazer parte de um quadro.

·“En Construccion”
Guerin, J. L., 2000

Através da fotografia consegue criar quadros com pedaços de realidade. É uma fotografia que não só representa a realidade como também tem uma grande carga artística, em que não se compreende se é um espaço plano ou em 3D.

2. O Espaço Marco
Aqui marcamos uma realidade que está por fora, em que se compreende o que se vê e o que não se vê. Introduz a ideia de separar o objecto e o sujeito.


·“As Meninas”
Velásquez, D., 1656

Estamos a perceber este quadro como se fossemos o pintor, pois este pinta o quadro através de um espelho, havendo assim uma realidade fora, pois supostamente estamos no lugar onde estão as meninas, no entanto ainda estamos fora dessa realidade uma vez que na parede do quarto do quadro está um espelho que reflecte os pais das meninas que estão cá atrás, mas ainda assim á nossa frente.


·“En Construccion”
Guerin, J. L., 2001

Existem buracos que deixam ver a realidade que está em luz, vemos então bocados de uma realidade que compreendemos.

3. O Espaço Projecção

Dá-se o desaparecimento da ideia de limite uma vez que agora o importante é a luz e sombra que determinam uma realidade. O objecto foi substituído pela representação. Agora o espaço é uma projecção da realidade.

·Instalação Eulália Vallsofera

Nesta instalação, através de garrafas de variadas formas projectam-se sombras que se assemelham a mulheres, sendo esta uma realidade projectada que não existe.


·Ronchamp
Le Corbusier, 1954

A parede não é entendida como limite mas sim como um espaço de projecção devido à luz e sombra que definem uma realidade, criando assim um diálogo entre a projecção de luz e de sombra. Não existe arquitectura, apenas luz e sombra.



·“En Construction”
Guerin, J. L., 2000

O reflexo do vidro deixa ver as construções que estão a ser feitas no exterior.


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